terça-feira, 22 de outubro de 2013

Poesias

"Um dia acordarás num quarto novo"
                                                     Mario Quintana.



   Um dia acordarás num quarto novo
   Sem saber como foste para lá
   e as vestes que acharás ao pé ao leito
   de tão estranhas te farão pasmar.
  
   A janela abrirás devagarinho:
   fará nevoeiro e tu nada verás...
   Hás de tocar, a medo, a campainha
   e, silenciosa, a porta se abrirá.

   E um ser, que nunca viste, em um sorriso
   triste, te abraçará com seu maior carinho
   e há de dizer-te para o ter assombro:
  
   -Não te assustes de mim, que sofro há tanto!
   Quero chorar - apenas - no teu ombro
   e devorar teus olhos, meu amor...

  

                                              "Para Maria Helena, que me pediu uma história bem romântica."



 "Eu nada entendo"
                       Mario Quintana.



   Eu nada entendo da questão social.
   Eu faço parte dela, simplesmente...
   E sei apenas do meu próprio mal,
   Que não é bem o mal de toda a gente,

   Nem é deste Planeta ... Por sinal 
   Que o mundo se lhe mostra indiferente !
   E o meu Anjo da Guarda, ele somente,
   É quem vê os meus versos afinal ...

   E enquanto o mundo em torno se esbarronda, 
   Vivo regendo estranhas contradanças
   No meu vazo País de Trebizonada ...

   Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,
   É lá que eu canto, numa eterna ronda,
   Nossos comuns desejos e esperanças !...


"As mãos de meu pai"
                          Mario Quintana

    As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
   sobre um fundo de manchas já cor da terra
   - como são belas as tuas mãos
   pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos...

   Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se cama simplesmente vida.
   E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua cadeira predileta,
   um luz parece vir de dentro delas...
   Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste alimentando na terrível solidão do                                                                                                                                                         [mundo,
   como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
   Ah! Como fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
   E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas...
   essa chama de vida - que transcende a própria vida
   ... e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.
  



Sobre Mario Quintana:

Mário Quintana foi um importante escritor, jornalista e poeta gaúcho. Nasceu na cidade de Alegrete (Rio Grande do Sul) no dia 30 de julho de 1906. Trabalhou também como tradutor de importantes obras literárias. Com um tom irônico, escreveu sobre as coisas simples da vida, porém buscando sempre a perfeição técnica.
Sua infância foi marcada pela dor e solidão, pois perdeu a mãe com apenas três anos de idade e o pai não chegou a conhecer (morreu antes de seu Viveu na cidade natal até os 13 anos de idade. Em 1919, mudou-se para a cidade de Porto Alegre, onde foi estudar no Colégio Militar. Foi nesta instituição de ensino que começou a escrever seus primeiros textos literários.
Já na fase adulta, Mário Quintana foi trabalhar na Editora Globo. Começou a atuar na tradução de obras literárias. Durante sua vida traduziu mais de cem obras da literatura mundial. Entre as mais importantes, traduziu “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust e “Mrs. Dalloway” de Virgínia Woolf.
Com 34 anos de idade lançou-se no mundo da poesia. Em 1940, publicou seu primeiro livro com temática infantil: “A rua dos cataventos”. Volta a publicar um novo livro somente em 1946 com a obra “Canções”. Dois anos mais tarde lança “Sapato Florido”. Porém, somente em 1966 sua obra ganha reconhecimento nacional. Neste ano, Mário Quintana ganha o Prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira dos Escritores, pela obra “Antologia Poética”. Neste mesmo ano foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras.
Ainda em vida recebeu outra homenagem em Porto Alegre. No centro velho da capital gaúcha é montado, no prédio do antigo Hotel Majestic, um centro cultural com o nome de Casa de Cultura Mário Quintana.
Faleceu na capital gaúcha no dia 5 de maio de 1994, deixando um herança de grande valor em obras literárias.





0 comentários:

Postar um comentário